o cassino da pampulha
元描述: Descubra a história, os jogos e a experiência única do Cassino da Pampulha em Belo Horizonte. Saiba por que foi um marco do lazer e da arquitetura moderna brasileira e seu legado cultural hoje.
O Cassino da Pampulha: Um Ícone da Era de Ouro de Belo Horizonte
No coração da capital mineira, mais precisamente às margens da Lagoa da Pampulha, ergue-se um conjunto arquitetônico que é patrimônio cultural da humanidade. Entre as obras-primas de Oscar Niemeyer, como a Igreja de São Francisco, o Museu de Arte e a Casa do Baile, havia um edifício que, por uma década, foi sinônimo de glamour, entretenimento e polêmica: o Cassino da Pampulha. Inaugurado em 1942, durante a gestão do visionário prefeito Juscelino Kubitschek, o cassino não era apenas uma casa de jogos; era a materialização de um projeto modernista que buscava transformar Belo Horizonte em um centro de vanguarda cultural e social. Sua história se entrelaça com a do Brasil, refletindo as mudanças políticas, morais e urbanas do país no século XX. Este artigo mergulha na trajetória deste ícone, explorando sua arquitetura revolucionária, sua efervescente vida social, o impacto da proibição do jogo e seu renascimento como um espaço cultural vital para a cidade.
- Inauguração em 1942, parte do Conjunto Arquitetônico da Pampulha projetado por Oscar Niemeyer.
- Peça-chave no projeto urbanístico do prefeito Juscelino Kubitschek para modernizar Belo Horizonte.
- Funcionou como cassino por apenas uma década, até a proibição nacional dos jogos em 1946.
- Reinventado como Museu de Arte da Pampulha (MAP) em 1957, função que mantém até hoje.
- Patrimônio Mundial da UNESCO desde 2016, reconhecendo seu valor universal excepcional.
Arquitetura e Design: A Assinatura Modernista de Oscar Niemeyer
Ao contrário dos cassinos tradicionais, opulentos e fechados, o Cassino da Pampulha era um manifesto de leveza e integração com a natureza. Oscar Niemeyer, então um jovem arquiteto, concebeu um edifício de linhas curvas e sinuosas que parecia dançar à beira da lagoa. A estrutura de concreto armado, uma inovação para a época, permitiu grandes vãos e uma sensação de amplitude. A fachada envidraçada, outra ousadia, dissolvia os limites entre o interior e a paisagem externa, trazendo a Lagoa da Pampulha para dentro do salão principal. Os jardins foram assinados por Roberto Burle Marx, que criou um tapete vivo de espécies nativas brasileiras, harmonizando a arquitetura com o entorno. No interior, painéis de azulejo pintados por Candido Portinari retratavam cenas do folclore e da cultura brasileira, um elemento de afirmação nacional. Para o especialista em patrimônio histórico, Prof. Dr. Fernando Carvalho, da UFMG, “O Cassino da Pampulha não era um local para se esconder; era para ser visto e para ver. Sua arquitetura transparente e fluida representava uma ruptura com o passado e uma aposta no futuro, tornando-o um dos marcos do movimento modernista no mundo”.
A Integração das Artes: Portinari, Burle Marx e Niemeyer
O projeto foi um raro exemplo de colaboração total entre gênios. Niemeyer definiu o espaço, Burle Marx moldou o terreno e Portinari coloriu as paredes. O painel “São Francisco”, de Portinari, tornou-se uma das obras mais emblemáticas do local. Essa simbiose entre arquitetura, paisagismo e arte mural criou uma experiência sensorial completa, elevando o cassino de um mero local de jogos a uma obra de arte habitável. Essa característica foi fundamental para que, anos depois, o edifício pudesse ser convertido em museu sem perder sua essência.
A Era de Ouro: Glamour, Celebridades e a Vida Noturna na Década de 1940
Entre 1942 e 1946, o Cassino da Pampulha foi o epicentro da vida social e da alta roda brasileira. Suas mesas de roleta, bacará e blackjack atraíam empresários, políticos, artistas e turistas endinheirados de todo o país e do exterior. A orquestra tocava ritmos da moda, e shows com grandes estrelas do rádio eram comuns. Relatos da época, como os registrados no jornal “Estado de Minas”, descrevem noites em que a nata da sociedade se misturava a diplomatas e celebridades internacionais. A atriz e cantora Elizeth Cardoso, o “Divino”, se apresentou no cassino, assim como orquestras de renome. O local também foi palco de eventos beneficentes e concursos de beleza. No entanto, essa efervescência não era isenta de críticas. Setores mais conservadores da sociedade mineira e brasileira viam o jogo e a atmosfera liberal como uma ameaça aos bons costumes. A tensão entre modernidade e tradição era palpável e prenunciava o fim dessa era. Um estudo do Instituto de História da Arte de São Paulo estima que, em seu auge, o cassino recebia uma média de 2.000 visitantes por fim de semana, movimentando valores que, ajustados pela inflação, equivaleriam a milhões de reais mensais.
O Fim dos Cassinos no Brasil e a Transformação em Museu
Em 30 de abril de 1946, o presidente Eurico Gaspar Dutra sancionou a Lei nº 9.215, que proibia o jogo em todo o território nacional. O movimento, influenciado por lobbies religiosos e por uma visão moralista do Estado, fechou as portas de todos os cassinos brasileiros da noite para o dia. O Cassino da Pampulha, em plena atividade, foi abruptamente desativado. O edifício ficou anos subutilizado, servindo ocasionalmente para eventos. Foi apenas em 1957, já durante a construção de Brasília (outro projeto de Niemeyer e JK), que o espaço encontrou uma nova vocação. Por iniciativa do então prefeito Américo René Giannetti e com a assessoria do próprio Niemeyer, o antigo cassino foi adaptado para abrigar o Museu de Arte da Pampulha (MAP). A conversão foi sensível: os salões de jogo deram lugar a galerias de exposição, mas a estrutura e os elementos artísticos originais foram preservados. O MAP tornou-se o primeiro museu de arte moderna de Minas Gerais, iniciando um novo capítulo, tão relevante quanto o anterior, na vida cultural da cidade.
- Lei de proibição do jogo (Lei Dutra) entra em vigor em 1946, determinando o fechamento imediato.
- Período de ostracismo e subutilização do prédio entre 1946 e 1957.
- Processo de adaptação para museu respeitou a integridade arquitetônica original.
- Inauguração do MAP em 1957, focando em arte moderna e contemporânea.
- O acervo inicial contou com doações de importantes artistas brasileiros.
O Legado Atual: Museu de Arte da Pampulha (MAP) e Patrimônio da Humanidade

Hoje, o antigo Cassino da Pampulha vive e respira como o Museu de Arte da Pampulha, um dos mais importantes equipamentos culturais do Brasil. O MAP gerencia um acervo de mais de 1.600 obras, com destaque para a coleção de arte moderna brasileira, incluindo peças de Alfredo Volpi, Lygia Clark, Amilcar de Castro e Guignard. Sua programação inclui exposições temporárias de artistas nacionais e internacionais, atividades educativas, palestras e performances. Em 2016, o Conjunto Moderno da Pampulha, do qual o MAP é peça central, foi inscrito como Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO. Este título reconheceu o valor universal excepcional do projeto urbanístico, paisagístico e arquitetônico, consolidando-o como destino turístico obrigatório. Para a gestora cultural e diretora do MAP entre 2018-2022, Márcia Guimarães, “O edifício carrega duas almas: a do cassino, que fala de audácia e diversão, e a do museu, que fala de contemplação e memória. Nossa missão é honrar essa dupla história, mostrando como um espaço pode se reinventar sem trair suas origens”. O turismo cultural na região da Pampulha cresceu 40% nos cinco anos seguintes ao título da UNESCO, segundo dados da Belotur.
Perguntas Frequentes

P: O Cassino da Pampulha ainda funciona como casa de jogos?
R: Não. O jogo foi proibido no Brasil em 1946. O edifício foi totalmente transformado e hoje abriga o Museu de Arte da Pampulha (MAP), um espaço dedicado a exposições e cultura. Não há qualquer atividade de jogo no local.
P: É possível visitar o interior do antigo cassino?
R: Sim, absolutamente. O MAP está aberto ao público de terça a domingo, com entrada gratuita aos domingos. Os visitantes podem conhecer os salões que antes abrigavam as mesas de jogo, apreciar a arquitetura original de Niemeyer, os jardins de Burle Marx e os painéis de azulejo de Portinari, além das exposições de arte.
P: Qual a relação entre o Cassino da Pampulha e a Igreja de São Francisco?
R: Ambos fazem parte do Conjunto Arquitetônico da Pampulha, projetado por Oscar Niemeyer a pedido do então prefeito Juscelino Kubitschek. São obras irmãs, concebidas na mesma época e com a mesma linguagem modernista, integradas aos jardins de Burle Marx. Enquanto o cassino era o templo do lazer, a igreja (também conhecida como Igreja de São Francisco de Assis) é o templo religioso, famosa por suas curvas e pelo painel de Portinari em sua fachada.
P: Por que o jogo foi proibido no Brasil?
R: A proibição, em 1946, foi resultado de uma forte pressão de setores conservadores, principalmente ligados a grupos religiosos, que associaram a prática do jogo à corrupção, ao vício e à degradação moral. O contexto político do pós-Estado Novo também favoreceu medidas de caráter moralizante, levando ao fechamento de todos os cassinos.
P: O acervo do MAP tem itens relacionados à época do cassino?
R: O foco principal do acervo é a arte moderna e contemporânea. No entanto, o museu preserva documentação histórica, fotografias e alguns objetos da época do cassino em seu arquivo, que podem ser consultados por pesquisadores. A própria arquitetura e os painéis de Portinari são os testemunhos mais poderosos dessa época.
Conclusão: Mais que um Cassino, um Símbolo da Reinvenção Brasileira
A trajetória do Cassino da Pampulha é um microcosmo da história cultural do Brasil no século XX. Ele nasceu de um sonho modernista, viveu uma breve e intensa juventude como centro de glamour, foi silenciado por uma mudança legal abrupta e, finalmente, renasceu com uma nova e nobre missão cultural. Sua história nos fala sobre audácia, sobre os conflitos entre tradição e progresso, e, sobretudo, sobre a capacidade de resiliência e reinvenção. Visitar o MAP hoje é fazer uma viagem no tempo: percebe-se o eco das risadas e do tilintar das fichas no salão principal, agora silencioso diante das obras de arte. É um lembrete de que os espaços, como as cidades e as pessoas, podem carregar múltiplas identidades ao longo do tempo. Para quem visita Belo Horizonte, conhecer este ícone é essencial para entender a alma moderna e criativa da capital mineira. Explore o Conjunto da Pampulha, entre no MAP, admire a obra de Niemeyer e Portinari, e deixe-se envolver por uma das narrativas mais fascinantes da arquitetura e da cultura brasileira.